segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

54. NO CARNAVAL: SEM PEITO E SEM DOCUMENTO

Hoje faz um mês que fiz a mastectomia e já começo a me acostumar com a condição de “despeitada”. É incrível a capacidade do ser humano de se adaptar às novas situações que lhes são impostas pela vida, ainda mais quando elas não são torturantes. Tem coisas que eu certamente jamais me acostumaria ou deixaria correr frouxo, mas não mesmo! Sei de todas as variantes, mas algumas são inconcebíveis, como por exemplo: apanhar do marido continuadamente, de filho ingrato que maltrata seus pais quando esses já não podem se defender, não ter direito ao descanso depois da labuta, andar em carro sem ar-condicionado nos 40 graus do verão carioca, usar calcinha apertada, enfim, milhares de outras coisas que podemos listar.
Bom, estou falando disso porque, como já disse, já me acostumei mesmo sem o seio esquerdo. Me acostumei a dormir sem ele, comer sem ele, dançar sem ele, ir ao supermercado sem ele, trabalhar sem ele, já me desapeguei com-ple-ta-men-te, vou até estranhar quando esta vaga for ocupada novamente pelo novo seio que vem chegando e que eu ainda não conheço. Como será que ele vai ser? Qual a carinha dele? Sentimentos parecidos de quando vamos ter filhos...
Bom, para ir me acostumando, fiz até o teste acima, no carnaval do “Suvaco do Cristo”, bloco que saio aqui no Rio de Janeiro e que sou uma das integrantes da “velha guarda”, apesar de ser ainda muito jovem, diga-se de passagem.
Mas me diverti muito com o meu seio provisório e improvisado, e dancei bastante até onde dava, fui até paquerada, o que me fez pensar se não coloco um assim “turbinado” como este da foto...Mas acho que nenhum rapaz iria encarar...
Foi ótimo ter revisto conhecidos e receber abraço dos amigos, felizes de me ver ali, toda cabrocha. Alguns abraços até “exageradamente perigosos e desastrados” para a minha condição de pós-operada, acompanhados de umas e algumas cervejas a mais, por isso o “se beber, não dirija”. Outros espantados de me ver ali, como se eu já estivesse mortinha da silva, pois quem conta um conto aumenta um ponto e para muitos já estava com o pé na cova e o meu câncer de mama já tinha virado outro tipo mais barra pesada, xô baixo astral.
Ontem, me esbaldei na Rua Jardim Botânico dançando ao lado das baianas, que tinham seu “território” protegido pelos seguranças do Bloco e que por ser da Velha Guarda tive este privilégio. Assim pude pular meu carnaval, mesmo que tenha sido bem devagarinho e com os dedos para cima, jogando a cabeça de um lado pro outro, numa tentativa quase ridícula em parecer uma passista de primeira.
Ontem, dia 15 de fevereiro faz um mês que fiz a mastectomia e, incrível, não tive nenhum motivo para me sentir triste. Estava viva e feliz, cantando e dançando aos pés do Cristo Redentor, rodeada de alegria, dos amigos, e da minha filha que debutava no Bloco. Estava sem meus documentos, que esqueci em casa, e sem meu seio esquerdo, que se foi junto com o meu câncer, mas, afirmo com toda a certeza do mundo: Fazia tempo que não me sentia tão inteira!

11 comentários:

Carmen Romanini disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carmen Romanini disse...

Clélia você é tudo mesmo!
Tenho certeza ,que nesse embalo ,você vai ter o carnaval mais alegre da cidade porque o seu bloco , chamado VIVER È TUDO! já foi para todas as ruas do mundo e "esse ano NÃO vai ser igual àquele que passou"...
-CERTEZA ABSOLUTA.
beijo grande desta admiradora nada

Rosaria disse...

Clelia, vc é mesmo demais! Fui na minha consulta de admissão, já que começo minha quimio amanhã e recebo essa carga de otimismo, bom-humor, coragem e determinação. Seu blog deveria ser leitura O-BRI-GA-TO-RIA para TODOS os desanimados, em qualquer situação!
MUITO OBRIGADA!
rosaria.bessa@gmail.com

clelia disse...

pessoal, eu sou é uma animada mesmo! rsrsrs, bjs

Solange disse...

Olá Clélia,

Adorei essa postagem... muito bom astral. Vc etá linda na foto, eu q ando meio baixo astral.... sempre olho seus comentários para dar uma renovada nas minhas energias.

Bjs,

Solange

Clélia Valadão disse...

OI,Clélia!! Essa sua alegria é contangiante.E com certeza só vai aumentar,e esse carnaval vai ficar na história.Estou feliz com vc.Parabéns.Beijos dessa sua FÃ.

Jê disse...

Clelita,
O que é um peito para quem tem o Suvaco.
Vc tava linda.
Bjk

A grande batalha! disse...

Olá Clélia!
Adoro suas postagens, que bom que já está acostumada com a nova condição, confesso que também me acostumei muito rápido com ela, a de despeitada... e assim como vc, ainda que "falte" algo, me sinto hoje muito mais inteira do que antes, como se tivessem tirado meus seios e me contemplado com asas!
Espero que vc também receba estas asas.
Um grande beijo,

Thaís

Blog da Irene disse...

OLÁ MINHA QUERIDA! VIM CONHECER SEU BLOG E DIGO A VC. QUE MINHA MÃE OPEROU DE CANCER DE MAMA, FAZENDO MASTECTOMIA DO LADO ESQUERDO HÁ EXATAMETE 20 ANOS. ELA ESTA HOJE COM 79 ANOS E SÓ NÃO ESTÁ BEM POR CAUSA DE UMA ARTROSE BRABA NO JOELHO. QUERO TE DIZER QUE VC. ESTÁ NO CAMINHO CERTO COM ESSA CABECINHA QUE VC. TEM. NÃO É FIM DE MUNDO NÃO MESMO. DEPOIS, PASSADO O TEMPO CERTO VC. PODERÁ FAZER A RECONSTRUÇÃO DA MAMA E PELO SUS. É ISSO AÍ, CURTA A VIDA SEM PENSAR, POREM COM CUIDADO, POIS VC. AINDA ESTÁ NA RECUPERAÇÃO DE UMA CIRURGIA E ISSO É DIFÍCIL NO SENTIDO DE QUE TUDO QUE VC. FIZER NESSA FASE REPERCUTIRÁ NO SEU FUTURO. QUALQUER CIRURGIA TEM PELO MENOS 6 MESES PRÁ SE RECUPERAR, ANESTESIA, ESSAS COISAS. SERIA BOM SE VC. PARTICIPASSE DE ALGUM GRUPO, PRÁ QÚE POSSA LEVAR SEU OTIMISMO PARA AS PESSOAS QUE NÃO TEM UMA CABE3ÇA COMO A SUA. MINHA LINDA, DEUS TE ABENÇOE SEMPRE E TE DE MUITA LUZ, ATÉ PORQUE SUA FILHA PRECISA DE VC. QUALQUER COISA, ESTOU LÁ NO MEU BLOG. APROVEITE VÁ LÁ DE NOVO E PEGUE OS DOIS SELOS QUE FORAM OFERTADOS PELA MINHA AMIGA MARY E QUE TE OFEREÇO AGORA. UM BEIJO NO SEU CORAÇÃO E FIQUEI FELIZ QUANDO VI QUE VC. ESTARÁ ME ACOMPANHANDO AGORA.

Larissa Santiago disse...

feliz carnaval, fofaaa!!!!

Luciana disse...

PEGUEI O LAUDO DA MINHA MÃEZINHA hj, câncer mesmo, o pior não é ser câncer, é não saber nada sobre o assunto e muito menos lidar com.
Tenho lido o seus posts, aprendo com eles, mas confesso que a vontade de ser vítima é bem maior do que a de ser a mulher maravilha ou simplesmente uma filha desesperada com medo de perder a sua mãe.Preciso ser adota, como vc postou, gostaria muito de ter uma mão muuuuito amiga neste momento.

beijos