terça-feira, 28 de outubro de 2008

12.Quimioterapia ou Aplicação,ora bolas ?

Voltei à clinica e ao Dr. Eduardo já para a primeira consulta da primeira quimioterapia.
Quando saíamos de casa para ir até lá, chega o meu pai para nos acompanhar. Disse: vim de mercedez com o meu motorista, uma beleza, viajem tranquila. Esta é a maneira dele dizer "oi, estou aqui, vim dar uma força, e tal".
Quanto a Mercedez com motorista, explico: meus pais moram em Nitéroi, e com preguiça de dirigir, ele pega o 999 (quase mil como chamam) ônibus que faz o trajeto Charitas X Gávea dando a volta ao mundo como se fizesse um tour, e que passa bem em frente da casa deles e da minha, ponto a ponto. Jóia.
Meu pai é uma pessoa muito especial e não é por ser meu pai não, o cara é gente boa. Já falei da minha mãe mas não falei do meu paie vou descrever rapidamente os dois.
Bom, minha mãe é muito engraçada, folgada como ela só, animada. Quando chega no pedaço, parece que vem toda a Bateria da Mangueira atrás, além da Ala das Baianas e algumas passistas de quebra. O meu pai é ao contrário, discreto e observador, tímido e preciso, mas o melhor contador de piadas que eu conheço, entre milhares de outras qualidades mais nobres. Além de tocar violão e piano, normalmente bossa nova. Aliás, meu pai é a minha bossa nova.
E é claro que puxei para a minha mãe, só que um grupo de chorinho atrás.

Bom, ele chegou e fomos os 3, rumo à clínica, para aquele dia que todos temiam: a quimioterapia.
Consulta ok, tudo certo, procedimentos iniciais, remédios para tomar caso apareçam alguns sintomas como dor de cabeça, enjôos e febre ligar imediatamente para o médico, telefones úteis, feito quando você deixa o filho pela primeira vez na creche. Igual. Só que eu não ia brincar.
Foi um dia tenso, sabia que agora o bicho ia pegar, e pensava, tenho que ficar tranquila, estou dando os primeiros passos para a minha cura.
A mãe do Robert, brava guerreira, ia para a quimio toda animada, com o pensamento que o tumor ia virar uma uva passa, secar. Eu achava uma boa idéia e fiz força neste pensamento também.
Meu pai me deu um beijo, e foi embora do geito que chegou, silencioso mas presente.
Minha mãe entrou comigo e foi logo se ambientando, conversando com as enfermeiras e olhando tudo em volta, onde é o banheiro, tem água, se está frio, quanto tempo vai durar, o que é isso que estão colocando, e ufa, sabe como é mãe, né? Estava numa excitação danada, nervosa, claro.
Ia durar por volta de duas horas, e na primeira meia hora ela já estava entediada, você está bem minha filha? Esta era a senha, mãe vai dar uma volta em Copacabana e compra sorvete por favor. Foi-se embora para as ruas movimentadas e cheias de vida do bairro mais eclético do Rio, exatamente como uma música de Fausto Fawcet.

Voltando. A sala era bem legal, com um divã super confortável e uma cortina caso quisesse privacidade, uma TV de plasma bem grande no centro em cima sempre ligada na TV Globo no "Vale a Pena ver de Novo", bem no meu horário, pena. De novo? Ficava fazendo as contas se dava para acompanhar a novela até o final do meu tratamento, senão como fazer pra ver a novela durante a jornada de trabalho? Com licença pessoal, vou até em casa ver "Cabocla". Impossível.

Portanto prepare-se para ler, é mais bacana e você pode variar de temas. Mas, como os filmes, literatura leve, coisas belas, algo que deixe você de bem, tô nem aí pro mundo lá fora.
Faça planos para o futuro, ou então ligue para aquela amiga que teve um filho ou que foi avó e você nem falou ainda, ou praquela outra que ficou tão abalada com a notícia que não teve coragem de te ligar. Sem ser Poliana, alô, pense em coisas boas, afinal "nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?" Evite pensar nos efeitos que a quimio pode dar, e tente pensar que ela está matando aquela coisa insignificante que é o tumor, ajude a combater o inimigo mas não o despreze.

E preste atenção numa coisa curiosa: nós falamos quimioterapia e eles falam aplicação. Nós falamos, quantas sessões de quimio? Eles dizem, quantas aplicações? Acho que é pra diminuir o peso do nome quimio, assim como do nome câncer, tão cheio de estigma e carregado de temor. Eu gosto de repetir a palavra câncer muitas vezes ao dia, até ele encher o saco e ir embora.

E não esqueça de perguntar os efeitos imediatos, quando fui ao banheiro meu xixi era vermelho. Pensei: estou tendo um treco qualquer, vou morrer, e de tão nervosa que estava nem lembrei que no final da consulta ele mencionou este fato. E como diz o meu amigo Geraldinho, "o que é um peidinho pra quem já se borrou todo?"

Depois continuo com a "aplicação", este post já está enorme!

Um comentário:

Rodrigo disse...

Minha prima gata. Impressionante quando leio seu blog parece que vejo você na minha frente matando uma cervejinha e conversando alegramente com aquele sotaque carioca. Adoro sua alegria e sua vontade de viver à vida. Quando estas aplicações acabarem dá uma passadinha aqui. Beijos e não precisa te dizer que eu te amo. :*

Beijos do Norte, mais agora mais ao norte, bem mais ao norte.

Beijos de seu primo Rodrigo.