sábado, 18 de outubro de 2008

2. Como contar?

Dias depois...

Agora que já tinha certeza, precisava contar para os amigos mais próximos, e principalmente para a filha, que neste momento vivia o esplendor dos quase 12 anos. Primeira menstruação, hormônios a mil, humor inconstante, enfim uma pré-adolescente. E qual é a coisa mais importante para uma pré-adolescente no mundo? os cabelos! E qual é a primeira mudança radical no visual de uma paciente de câncer fazendo quimioterapia? A queda dos cabelos! Fora estarmos vivendo momento, digamos, tão diferentes, como abordar?

Bom, vamos por partes. Para os amigos mais íntimos um email mordendo e assoprando, do tipo, estou com câncer de mama, não se preocupe, descobri a tempo, não vou morrer, te amo, um beijo , tchau. As mais variadas respostas, estou passando aí e uma solidariedade incomensurável.

É realmente muito bom ter amigos, tudo que eles dizem a favor neste momento faz seu coração bater palminhas, que nem aquelas almofadas em forma de coração com bracinhos que se vende nas rodoviárias e afins. Como você não consegue pensar em outra coisa, natural , é bom ter amigos diferentes para alugar o ouvido em horas e com diferentes amigos. Não dá pra jogar tudo num só! Até porque vc fica aliviado e o pobre do amigo tem que tomar banho de sal grosso. cruzes. E o que é pior: vai te evitar. Se possível, é bom ligar para o velho e bom psicanalista para te ajudar a elaborar e encaixar o golpe e pedir o colinho dos amigos, mais bacana. Eles se sentem mais úteis e mesmo que seja para ver a novela do seu lado é uma delícia . E como dizia Barão de Itararé: de onde vc não espera nada é que não vem nada mesmo: aquele amigo casual, que vc encontra na noite, ou nos eventos que vc vai, esquece. Ele não é seu amigo e só atrapalha, porque fica te olhando com pena e tem sempre uma estória pra contar. Quando vc quer esquecer que está com câncer, o cara vem, faz ts,ts, balançando a cabeça, te segura pela mão e pimba, te faz lembrar. Um mala.

Bom, eu tenho sorte. Tenho bons amigos e um grupo de amigas mulheres muito próximas, com filhas mulheres amigas da minha filha. Ou seja, reação em cadeia,uma espécie de clã feminino que se ajuda bastante e é muito solidária.

Aliás, foi minha amiga Patrícia (todo mundoda minha idade tem uma amiga chamada Patrícia !)foi quem me deu um toque, depois de eu comentar, assim que contei para um ex-namorado: nossa Patrícia, vc viu fulano, ficou com uma cara constrangido, mais triste que eu, que baixo astral! Pô Clélia, conta devagar, vc acha que todo mundo é assim que nem vc? O cara ficou triste, normal, vc conta assim na lata.
Pois é, é bom ter cuidado ao contar, quanto mais velha (o) e /ou hipocondríaca (o) seja o amigo, mais pé na cova você estará! E depois fica difícil retomar a conversa, fica aquele clima estranho. Ele se sente na obrigação de te dar força, e algumas vezes pinta aquele olhar pra vc do tipo: que pena, não chega no Natal.

Bom, precisava então contar pra minha filha, afinal, ela já estava odiando meu ex achando que eu estava assim, meio triste, por causa dele... . Era bom conversar logo antes que ela começasse a odiar os homens naquele momento e nunca mais resolvesse a questão. Terapia por anos.
Então resolvi : fui pegá-la na escola, fomos jantar fora e eu com um chopinho e ela com suco de laranja, tivemos uma conversa maravilhos. Mamãe está com câncer de mama, vai acontecer um monte de coisa na nossa vida, vai cair meu cabelo, às vezes vou ficar de muito mau humor, depois vou ter que operar e tirar a mama, algumas pessoas não sobrevivem a esta doença mas a mamãe vai ficar boa. Sabe Flora da "Favorita"? Já teve. É, a bicho ruim mesmo! Pois é, na vida real ela não é má, teve câncer igual o da mamãe e chama-se Patrícia Pilar. E fulano, e beltrano, e sicrano? Pois é. Também. Assim fomos conversando e eu contando que ia usar peruca, uma de cada cor, e 'blá, blá, blá, blá. Demos risadas e tirei um peso das costas. Por uma semana podia pedir qualquer coisa que ela fazia. Pega o controle remoto, dá uma água, arruma seu quarto, que tal estudar, etc. O tempo foi passando, ela acostumando e agora é: pô mãe, só pq vc está com câncer?! Eu heim, dá um tempo! E bate a porta me deixando falando sozinha. A vida segue, inclusive minha filha está passando para a adolescência e eu não posso esquecer disso.
Depois conto a visita ao oncologista.

6 comentários:

Mariana Rocha disse...

o lindo é ver como eles, nossos fofos filhos, podem ser lindos com a gente, quando a gente precisa deles, né?
muitos beijos, mari

clelia bessa disse...

com certeza! bjs

LUISA MIRANDA disse...

OI Clelia estamos vivendo a mesma situaçao de vida, eu tbm tirei o nódulo agora, e tbm agora estou fazendo a minha 1 quimio,esta sendo uma experiençia muito ouca pra mim tbm, mas sou mais uma guereira, tanto que ja estou pensando em tatuar minha careca com henna qdo ela surgir pra ficar mais estilosa,eu qdo acabar tudo isto em julho do proximo ano nao viajo, mas em outubro faço 50 anos e vou comemorar na ilha de Santorini com muito mais luz na minha vida, namaste e vsmos la
Luisa Miranda

clelia disse...

Ou Luisa, agora que vi seu comentário..
Eu quase tatuei minha careca com henna, mas desisti pq gostei dela sem nada, assim brilhante! Você mora em que cidade? Segue meu email pessoal, caso queira trocar idéias ou falar bobagens. cleliabessa@uol.com.br. bjs

Anônimo disse...

Vc devia fazer um livro, escreve comicamente, não consigo parar de ler!!! hehehehe


Acompanhando....

Até logo.
Fernanda!

Anônimo disse...

oiie gente passando só pra dizer que vcs tem mais uma amiga pra conta precisando tó ai ...bjs